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José Amaro
Ex-autarca Assembleia Municipal de Faro
 A clientela está em estado de necessidade  18-02-2012 8:44:00

O atual governo, com o seu PES (Programa de Emergência Social), abandona o seu papel de ator no campo social, passando as todas suas responsabilidades para as IPSS. Devidamente pagas, como dá jeito, pois a clientela está em estado de necessidade.

Segundo o ministro Mota Soares, falta ao Estado vocação para intervir na área social e, nesse sentido vão ser disponibilizados mais 50 milhões de euros, não se sabe bem para quê, mas sabe-se para que bolso é direcionado.

Conheço casos de IPSS, com um trabalho louvável mas, por conhecimento de lamentáveis situações do passado, sabemos que os idosos com reformas generosas ou bens para doar à instituição são sempre bem acolhidos.

Relativamente, à grande massa de excluídos, até agora apoiados pelo Estado, “façam-se à estrada”, pois não há meios para satisfazer todos os necessitados.

Contaram-me há dias, um caso de ganância de tal ordem, que solicitaram aos familiares de um idoso acamado numa instituição social, a quem “confiscam” a reforma, a aquisição de fraldas, mas quando as mesmas foram entregues, foram recusadas por ser obrigatório o uso das fraldas, vendidas pela instituição.

Quem olhará pelos mais necessitados? Só pode ser o Estado, porque é quem nos cobra os impostos! A regulação resolverá esta problemática?

Recordo aos crentes, que o órgão regulador da energia e das comunicações, ainda não regulou porra nenhuma, digna de registo, apesar dos vários anos de funcionamento e de pagar esplêndidos vencimentos aos seus membros.

A fuga do Estado, ao comprometimento social, será uma deriva terceiro-mundista, desapropriada de um país da U.E., mas percebe-se que contém uma perspetiva economicista, que originará a morte de muitos idosos a viver sós, como tem sido, amplamente, noticiado na comunicação social.

Por falta do mais elementar apoio, os idosos passam fome, frio e desesperados pela falta de fé num futuro melhor, desistem de viver.

Levianamente, os obscenos serventuários do regime, sedentos de cargos e honrarias, definirão estes casos como vítimas da solidão, desresponsabilizando por completo o Estado do papel de guardião da dignidade e qualidade de vida dos seus cidadãos.

Aparentemente, este governo pretende obter uma boa folga orçamental, à pala do seu progressivo afastamento dos custos de financiamento dos serviços estatais de âmbito social, criando condições de precariedade a um nível tão elevado, que originará mais perda de vidas entre os elementos mais frágeis da nossa sociedade.

É um assunto muito sério, pois segundo estudos recentes cerca de 25% dos portuguese é pobre ou está em risco de o ser e tornar as intervenções na área social num negócio de milhões, não augura nada de bom.

O social tem custos de funcionamento, mas não pode ser, uma mera questão de deve/haver, pois se essa tese prevalecesse não necessitaríamos de um governo, mas de um contabilista a tratar das questões da receita e da despesa.

No passado, quando não tínhamos burocratas amestrados a governar, avaliava-se o desempenho do Estado pela capacidade demonstrada nos cuidados com os seus membros mais carenciados.

Hoje, apesar da colossal manipulação mediática, torna-se clara a intenção deste governo: cavar os alicerces do Estado Social, para provocar o seu desmoronamento; criar as condições ideais, para sem alarme social, poder entregar o “negócio” ao investimento privado.

Conscientemente, complicam o acesso à Saúde, à Educação e à Segurança Social. Parece, portanto, que não é uma questão ideológica ou de falta de sensibilidade social, porque bem vistas as coisa, tudo vai desembocar no campo comercial.

Estão reunidas as condições para ser mais uma valente negociata. Este governo cometeu um pecado capital: não disse antes das eleições, que perseguia o desmantelamento do Estado Providência.

Termino citando o brasileiro Millôr Fernandes, desenhista, humorista, dramaturgo, escritor e tradutor. “As pessoas que falam muito, mentem sempre, porque acabam esgotando seu stock de verdades”.

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